Séries
Mitos Vivos: As Histórias do Folclore Brasileiro com as Quais Cresci
· Mariana Salmonson
Cresci ouvindo essas histórias.
O Cuca estava em nossas canções de ninar. Iara vivia nos rios. Vitória-Régia era uma flor, mas também foi uma vez uma menina chamada Naiá, que olhava para a Lua e se apaixonava.
E o Saci estava em toda parte.
Nos pequenos redemoinhos que apareciam no meio da cidade. Na crina de um cavalo que, de alguma forma, terminava impossivelmente embaraçada da noite para o dia. Naquilo que você sabia que tinha deixado bem ali, só para descobrir que havia sumido. Qualquer pequena travessura inexplicável podia ser explicada com a mesma razão perfeita: “Foi o Saci.”
Talvez seja uma das coisas que mais amo no folclore brasileiro. Essas histórias nunca ficaram restritas aos livros. Elas entraram na vida cotidiana. Deram nome ao desconhecido e transformaram um som na escuridão, uma súbita lufada de vento, um rio, uma flor, um animal ou uma floresta em parte de uma história muito maior.
Para muitos brasileiros, encontramos esses personagens muito antes de entendê-los como “folclore”. Eles chegam por meio de canções, histórias de família, avisos de infância, piadas, livros, televisão e escola. Crescemos conhecendo-os quase sem perceber que estamos aprendendo sobre eles.
Mas retornar a essas histórias como adulto — e, particularmente, como artista — também significa olhá-las de outra forma.
O folclore brasileiro não é uma mitologia única, com uma versão definitiva de cada história. Ele carrega influências indígenas, africanas, europeias e regionais, moldadas pelas tradições orais e pelas pessoas que recontaram essas histórias ao longo das gerações. O mesmo personagem pode mudar de aparência, gênero, personalidade ou significado, dependendo de onde e por quem a história é contada.
Essa complexidade é especialmente interessante para mim quando olho para suas personagens femininas.
Algumas são guardiãs. Algumas são temidas. Algumas encantam. Algumas são punidas. Algumas se tornam parte da própria paisagem.
Há a Mãe da Mata, ligada à floresta como uma presença viva que deve ser respeitada. Matinta Perera se anuncia por meio de um assobio misterioso na noite. Iara pertence aos rios. Alamoa emerge da paisagem de Fernando de Noronha. A Mula sem Cabeça carrega séculos de ideias sobre mulheres, sexualidade, religião, pecado e punição.
E há também Naiá, cujo desejo por Jaci, a Lua, termina com sua transformação na Vitória-Régia — uma estrela não no céu, mas nas águas da Amazônia.
Essas histórias nos falam de criaturas fantásticas, mas também nos dizem algo sobre as pessoas que as contaram: o que temiam, o que respeitavam, como entendiam a natureza e como tentavam explicar o mundo ao seu redor.
Foi aí que Living Myths começou.
Living Myths reúne, pela primeira vez como uma coleção, obras de arte que criei em diferentes momentos da minha prática artística. Elas não foram originalmente concebidas como uma única série. Mas olhá-las juntas revelou uma conversa que vinha acontecendo em meu trabalho há anos.
O folclore brasileiro como algo vivo.
Não algo congelado no passado ou preservado atrás de um vidro, mas histórias que continuam a mudar toda vez que as contamos. Histórias que viajam conosco. Histórias que reinterpretamos. Histórias que passamos aos nossos filhos.
Para mim, elas também são uma forma de retornar ao Brasil, não importa onde eu esteja.
Em 22 de agosto, Dia do Folclore Brasileiro, essas obras se reúnem pela primeira vez na coleção Living Myths.
Porque talvez seja isso de que um mito precisa para permanecer vivo:
alguém disposto a contá-lo novamente.
https://marisalmonson.com/collections/living-myths-brazilian
